AGC, Cebrace, Guardian, Vivix… Vidro float, temperado, laminado, insulado, de proteção solar, baixa reflexão… Quanta coisa! Mas como chegamos até aqui? Quais são as tendências futura para o seguimento vidreiro?
Para iniciar essa coluna com chave de ouro, eu gostaria de lhes convidar para uma viagem, comigo, ao passado onde vamos explorar toda a trajetória do vidro, desde de a sua descoberta até os dias atuais. Ao final da nossa viagem teremos a compreensão de todas as transformações que o vidro foi submetido até se transformar na matéria prima base de trabalho para um grande número de leitores desta revista. Assim, estaremos mais preparados para tratar, nas próximas edições, de todos os avanços tecnológicos que nos permitem oferecer ao mercado, soluções cada vez mais modernas e inovadoras em termos de aplicações dos mais variados tipos de vidros oferecidos pelas produtoras de vidro plano no Brasil.
Bem-vindos a bordo!
Partindo de 2015, vamos desembarcar em 5000 a.C, onde segundo relatos de Plínio, o velho, do século 1 a.C, mercadores fenícios descobriram acidentalmente o novo material ao fazerem uma fogueira – na beira da praia – sobre a qual apoiaram blocos de nitrato de sódio ( que serviam para segurar suas panelas). O fogo, aliado à areia e a o nitrato de sódio, originou, pela primeira vez, acredita-se, um líquido transparente, o vidro.
Viajando mais para o futuro, estamos em 100 a.C., e observamos os romanos produzindo vidro por técnicas de sopro em moldes, para confeccionar suas “janelas”. E em 300 d.C. o imperador Constantino cobrando taxas e impostos aos vidreiros, tamanha a difusão e importância (lucratividade) do produto.
Num pulo no tempo, estamos entre 500 e 600 d.C., acompanhando o desenvolvimento de um novo método que possibilita a execução do vidro plano, por sopro de uma esfera e sua sucessiva ampliação por rotação em forno (até o século XIX, a maior parte da produção do vidro foi feita por este sistema).
Segura na minha mão, novamente, para continua a nossa viagem, mas agora, estamos por volta de 1300 e o vidro moldado a rolo foi introduzido em Veneza (técnica vinda do Oriente, através das Cruzadas). É nesse momento que testemunhamos a ilha de Murano notabilizando-se e especializando-se na produção artística do vidro, aparecendo, nesta época, o cristal.
Ainda nesta data, descobre-se um novo processo: por sopro de cilindros (que é revolucionária para a produção de vidros planos). Por ação simultânea de sopro e força centrípeta, originária da movimentação do cano, obtém-se um cilindro (50 cm de diâmetro por até três metros de comprimento); que depois é colocado em um forno (“estendeira”) e deixado para estender.
Mas é quando alcançamos o século 14 que vemos o famoso arquipélago de Murano, localizado na lagoa de Veneza, se tornar o tão conhecido centro de produção de vidros, sendo líder em sua produção e reconhecida mundialmente, até os dias atuais, por causa da sua técnica de produção e a impecável qualidade no produto final.
Precisamos nos apressar, e continuar a nossa viagem. Porém, agora vamos para a Inglaterra, na década de 1590. Chegamos a tempo para acompanhar a construção do palácio de Hardwick, localizado no condado de Derby, e como observadores da história, podemos observar que havia mais vidros e janelas do que paredes.
Rápido, a nossa viagem continua, não podemos parar. Afinal de contas, temos que trabalhar… Vamos, temos que atravessa o oceano Atlântico. Pronto. Estamos nos Estados Unidos, em 1608, e ele ainda é uma colônia inglesa, mas já está fabricando vidros. Acabei de receber um WhatsApp que diz que na terra do samba e do futebol, o Brasil, ainda como colônia portuguesa, a atividade aparecerá apenas por volta de 1624.
Vamos, imediatamente para o século 17, porque algo muito importante vai acontecer nessa época e será um dos grandes avanços na técnica de produzir vidro. Pronto, chegamos! Acompanhamos o nascimento da técnica coulage – método de estirar a massa de vidro fundido, sobre uma mesa, manualmente, com rolos de cobre.
Agora, passando pelos séculos 18 e 19 vemos a Inglaterra se manter na vanguarda na produção de vidro nesse período, e, especificamente, em 1826, onde estamos agora, nasce a St. Helen Crow Glass Company – atual Grupo Pilkington (NSG).
Estão nos chamando na França, porque o ministro de Luís XIV (meu xará), Jean-Baptiste Colbert, está incentivando a criação de fábricas, com o obtivo de abastecer o mercado interno e externo, na tentativa de se estabelecer tão forte e reconhecida produtora de vidros como às republicas italianas e própria Inglaterra.
Vamos aproveitar para acompanhar, nessa época, o nascimento do Manufacture Royale des Glasses de France, e, também, industrias privadas, como a Saint-Gobain, em 1963. Que legal. Essa empresa acabou de ser escolhida pelo próprio Luís XIV, como a fornecedora oficial dos vidros para a Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes. E nós, estamos vivenciando tudo isso. Que sorte a nossa!
Vamos correr contra o tempo, pois precisamos alcançar o século 20. Ele, com certeza é um momento bastante importante na história do vidro: O belga Émile Foucault – herdeiro da empresa de vidro Dampremy, fundada em 1836, por seu avô, Jules Frisan – e o mestre vidraceiro Émile Gobbe inventaram, em 1906, um processo mecânico de estirar a massa de vidro, que consistia em fazê-la subir, utilizando pinças, por uma estrutura vertical de quase 20 metros para ser cortada. Ainda bem que conseguimos chegar e acompanhar esse momento histórico.
A substituição dos rolos de cobre por este método é um grande avanço, porém, ainda existem dificuldades técnicas que resultam em defeitos no vidro. É neste momento, que uma empresa, nos Estados Unidos, realiza alguns ajustes na passagem do forno para a estrutura vertical. Essa técnica conhecida como Pittsburgh e melhorou, consideravelmente, o aspecto ótico do vidro estirado.
Nossa viagem não terminou e temos que ir imediatamente ao Japão. E gora estamos em 1907, e presenciamos a fundação da Asahi Glass (AGC), por Toshiya Iwasaki, o segundo filho do segundo presidente Mitsubishi Corporation.
Um momento, meu celular está tocando… Precisamos retornar aos Estados Unidos, para a cidade de Toledo, em Ohio. Agora, em 1917, está acontecendo um grande avanço na produção do vidro estirado: um processo que apresenta a horizontalização de toda a estrutura por onde passava a chapa e proporciona melhor manejo e precisão no corte. Esse método é chamado de  Libbey-Owens.
Vamos explorar um pouco mais os Estado Unidos? Opa, acho que não. Devemos voltar imediatamente ao Japão, em 1918, mais precisamente, na cidade de Osaka e por sorte chegamos a tempo de acompanhar o nascimento da fábrica América Japan Sheet Glass CO. Ltd. Esse nome foi trocado, 23 anos depois, para Nippon Sheet Glass Co. Ltd., conhecida como NSG.
Com um salto, chagamos em 1932 e podemos observar, o surgimento de outras empresas, nos Estados Unidos, entre elas nascia a Guardian Glass Company – como um pequeno fabricante de para-brisas, à época, em Detroit, Michigan.
Estamos, agora, em 1959 e vamos acompanhar o maior avanço, na história do vidro, no que diz respeito ao seu processo de fabricação, porque é exatamente nesse ano que Alastair Pilkington, herdeiro e membro da quinta geração da família e seus técnicos, após incansáveis anos de pesquisas e experimentações, buscando o vidro perfeito, criam o método float, que garantiu ao vidro planimetria e transparência perfeitas, sendo essas qualidades fundamentais do vidro plano.
No método float, usa-se um tanque com estanho na forma líquida em que a massa de vidro derretida (com aspecto parecido com uma calda de açúcar queimado) é derramada e essa flutua, sobre o estanho, por ser mais leve do que ele, e se esparrama de forma controlada, formando uma chapa contínua. Até hoje esse método é sinônimo de vidro perfeito e sem distorções.
Agora, chegamos ao Brasil, em 1549, onde vemos o vidro – transformado com espelho, ser um dos elementos usados como “moeda” para o pagamento da madeira pau-brasil, pelo governador Tomé de Souza, fornecida pelos índios, para a construção da futura capital brasileira, Salvador.
Estamos, finalmente, no período de 1624 e 1635, acompanhando as invasões holandesas, em Olinda e Recife (PE), Olha, está sendo montada a primeira oficina de vidro, por quatro artesões que acompanham o príncipe Maurício de Nassau. A oficina fabrica vidros para janelas, copos e frascos. Mas os holandeses estão partindo e com isso a oficina está encerrando as suas atividades. Espero que eles tenham um bom contador…
Acho que estamos perdidos, preciso verificar aonde estamos… Ah, sim. Estamos em 1810, em 12 de janeiro. Que carta é essa que o português Francisco Ignácio da Siqueira Nobre recebeu? Deixa eu dar uma espiadinha. Caramba! É a carta régia autorizando a instalação de uma indústria de vidro no Brasil. Então vamos agora para esse momento da história. A fábrica é instalada na Bahia e produz vidros lisos, de cristal branco, frascos, garrafões e garrafas. Ela entra em operação em 1812. Em 1825, infelizmente, acompanhamos o seu fechamento em função das grandes dificuldades financeiras.
Ufa, chagamos ao Rio de Janeiro, e estamos em 1839, e um italiano, chamado Folco, funda a fábrica Nacional de Vidros São Roque, com um processo de fabricação totalmente manual. E já vemos, nessa época uma fábrica de vidros sofrer a concorrência das importações de produtos da Europa e sobras de consumo que são vendidas a qualquer preço. Já em 1861, vemos a indústria vidreira brasileira apresentar os seus produtos na exposição nacional na Escola Central, no largo São Francisco, no Rio de Janeiro.
Em 1878, Francisco Antônio Esberard funda a fábrica de Vidros e Cristais do Brasil em São Cristóvão (RJ). São quatro grandes fornos e três menores, com máquinas a vapor e elétrica.
De volta à Bahia, mas agora em 1902, temos que destacar a presença da Fratelli Vita.
No Brasil, até o século XX, a produção de vidro era basicamente artesanal, utilizando os processos de sopro e de prensagem. Foi a partir do início do século XX que a indústria do vidro se desenvolveu com a introdução de fornos contínuos e máquinas semi ou totalmente automáticas para produções em massa.
Estamos quase voltando para 2015, mas vamos fazer uma parada em 1982 (um ano antes do meu nascimento). Vamos acompanhar a indústria francesa Saint-Gobain e a inglesa Pilkington, à época, unirem suas forças para construir a primeira fábrica de vidro float do Brasil, a Cebrace, na região do Vale do Paraíba, no estado de São Paulo.
De 1982, vamos direto para 1998, onde a coisa está esquentando. A Guardian, iniciou a produção de vidro plano no Brasil, nesse ano, no Rio de Janeiro, em Porto Real. Agora a Cebrace tem uma concorrente e o Brasil ganha com o aumento da capacidade produtiva nacional em fornecimento de vidro plano.
Estou quase cansado, mas temos que ir para 2013, porque a AGC inicia a produção de vidro plano no Brasil, no estado de São Paulo, em Guaritinguetá. Que honra para o Brasil ter essas três industrias produzindo produtos de alta qualidade, em território nacional, e utilizando as tecnologias mais modernas na produção de vidro plano.
Agora acho que podemos retornar para 2015, foi uma longa viagem, mas espera um pouco. Não paramos por aqui. Vamos para 2014, porque ainda temos mais uma novidade: É a Vivix, empresa de capital 100% nacional, localizada em Goiana – Pernambuco, iniciando a produção de vidro plano. Como a indústria produtora de vidros cresceu de 1624 até agora.
De volta a nossa realidade, podemos refletir sobre todas as metamorfoses do vidro durante toda a sua vida, e como é rica a sua trajetória, sendo ele mesmo parte da história do próprio planeta.
Espero que você, assim como eu, sinta orgulho de trabalhar com esse produto único e tão especial e que consiga transmitir o seu valor, durante as negociações comerciais e com isso conseguir melhores resultados financeiros.
Obrigado pela sua companhia e até a próxima.