Uma cena simples e cruel me chamou atenção pela lição que ela encerrava.
Estava em visita de trabalho a um desses hotéis fantásticos e paradisíacos que, cada vez mais, pontuam a nossa maravilhosa costa oceânica. Lá, com toda a calma do mundo, aguardava a chegada de um grupo, pelo qual fui contratado para ministrar treinamento na área de vendas.
De repente, no balcão da recepção, debruçou-se um senhor ávido para apressar o seu “check in”. Notei que, mais atrás, uma jovem senhora, provavelmente sua esposa, aguardava a liturgia enfadonha do preenchimento das fichas de hospedagem.
Solícito, o recepcionista, certamente bilíngue e bem treinado, esmerava-se em pontuar seu atendimento com destreza e polidez. O hóspede, possivelmente cansado de uma longa viagem, preenchia toda aquela papelada com educação, mas sem nenhuma paciência.
Eis que, quando tudo parecia concluído, o ativo recepcionista pegou a cobiçada chave do apartamento e procedeu a passagem ao seu novo proprietário. Nesse instante, numa atitude obtida através de treinamento e exaustiva repetição, o rapaz fechou o ritual da seguinte maneira:
– A direção do nosso hotel fará todos os esforços para que o senhor e sua senhora se sintam como se estivessem em sua própria casa.
Eu que a tudo assistia, sem nenhuma pretensão, além da mera bisbilhotice, não me contive com a resposta do hóspede:
– Meu amigo eu saí de São Paulo para vir até aqui. Perdi dois dias de trabalho, enfrentei três horas num avião lotado, paguei R$ 6.000,00 por um pacote de quatro noites e você me oferece a recompensa do seu majestoso hotel para que eu me sinta em casa. Definitivamente, se estou aqui, a única coisa que eu não quero é me sentir como se estivesse em casa.
Certamente o “clichê” surrado não foi devidamente reavaliado pelo pessoal que dá treinamento aos funcionários do nosso famoso “resort”.