Foto: Paulo Rogério FagundesAnastássios Skardanas estava com 90 anos de idade e provavelmente era o mais antigo integrante do setor vidreiro nacional quando faleceu na madrugada do dia 7 de janeiro, em sua residência. Durante o velório e o sepultamento, no dia seguinte, amigos, familiares e empresários do setor vidreiro foram prestar suas últimas homenagens ao fundador da Vidros Belém, no Cemitério Memorial do Carmo.
O empresário dedicou mais de 60 anos de sua vida ao setor vidreiro, e deixará saudades não só aos familiares e amigos, mas também ao segmento, que perdeu um de seus mais ilustres integrantes.
Anastássios nasceu em 1923 na cidade de Mangalia, na Romênia, onde viveu até os 26 anos de idade. Como seu pai e avós eram gregos, ele sempre foi considerado grego, pois, na Europa, considera-se a nacionalidade consanguínea e não o local de nascimento.

SR ANASTASSIOSAnastássios nasceu em 1923 na cidade de Mangalia, na Romênia, onde viveu até os 26 anos de idade. Como seu pai e avós eram gregos, ele sempre foi considerado grego, pois, na Europa, considera-se a nacionalidade consanguínea e não o local de nascimento.
No sótão da casa onde Anastássios vivia com sua mãe e os quatro irmãos (pois seu pai falecera quando ele tinha apenas três anos), brincava com algumas ferramentas, entre as quais estava um diamante para cortar vidro.
E foi assim que Anastássios ingressou no setor vidreiro. Começou a testar e cortar vidros por “brincadeira” e, aos poucos, as pessoas foram chamando-o para alguns serviços relacionados ao vidro. Ele cortava o vidro do cliente e pedia para ficar com os cacos para reaproveitar. “Assim ficou conhecido como vidraceiro”, conta sua filha Adriana Skardanas.
SR ANASTASSIOSDepois da Segunda Guerra Mundial, Anastássios foi tentar a vida em Atenas, na Grécia, mas a situação estava difícil na Europa. Então, por indicação de um amigo de infância, resolveu vir para o Rio de Janeiro, no Brasil. “A cidade foi escolhida por ser o lugar onde estava seu amigo e também por ser região de praia, pois quando jovem, ele adorava nadar”, explica Adriana.
Anastássios chegou ao Brasil com U$ 300,00 e as ferramentas (cortadores de diamante) no bolso, “como sempre se orgulhava de falar”, relembra Adriana. Com dois dias na cidade pegou a lista amarela e começou a procurar vidraçarias onde poderia trabalhar.
E foi assim que chegou à Casa Carioca, onde o proprietário pediu que ele colocasse uma chapa na mesa e cortasse o vidro. Momentos depois de fazê-lo já estava contratado. Nas horas de folga, Anastássios pegava os cacos de vidro e cortava peças redondas para vender às relojoarias.
Amigos de Anastassios Skardanas em passeio: Jorge Vilela, Héber José Santos e SolangeEle ficou na Casa Carioca por dois anos até fundar sua própria empresa, a Vidros Belem, em 1955, onde trabalhou até os últimos dias de sua vida. “Aos 90 anos de idade, ele fazia questão de estar presente e ver as coisas funcionando, sempre chamando a atenção para algum problema quando necessário”, conta Adriana ao relembrar as atitudes do pai: “meu pai sempre foi um paizão, não só para mim e meu irmão, mas para todos os funcionários. Ele brigava, reclamava sem se importar com quem estava perto. Sempre teve muito pulso firme. Mas, ao mesmo tempo, sabia ser carinhoso e bondoso com todos”.
Ao longo da vida fez muitos amigos de longa data, como Héber José Santos, que o conheceu em 1966. “Ele é meu pai no Rio de Janeiro”, afirma Héber ao se lembrar, com carinho, do amigo que se foi. Anastássios foi o responsável pelo ingresso de Héber no setor vidreiro. “Eu tinha um negócio que não ia muito bem. Então, um dia, ele veio falar comigo, disse que eu não servia para o ramo de tinta, que eu precisava entrar no setor vidreiro, então, ele encheu um caminhão com ferramentas e equipamentos da loja dele e trouxe para mim. E até hoje eu trabalho com vidros”, conta o empresário, que nos enviou o depoimento a seguir:

Foto: Elmo PiresAnastássios Skardanas, ou simplesmente “Seu Anastássio”, como era conhecido.
Homem de grande valor, respeitado pelo seu caráter, honradez, retidão, sentimento de justiça, bondade e fidelidade aos amigos.
Amado por todos os que o conheciam de perto. E somente estes sabem exatamente como ele era: gênio forte, coração “mole”.
Sempre preocupado em ajudar quem quer que fosse, não apenas aos amigos e funcionários, mas também, ao mendigo da sua rua, o pedinte dominical da Av. Atlântica, onde íamos sempre tomar água de coco. Tínhamos um trato divertido. Nos domingos pares ele pagava a conta e os domingos ímpares eram meus, isto sempre gerava muitos risos e piadas.
Em outros finais de semana, no sítio, “roubava” flores do jardim para, gentilmente, oferecer às senhoras presentes, e com isto, mais risos.
Dono de uma vitalidade incrível para seus 90 anos, sempre com novas ideias, novos projetos, como se ainda tivesse 20 anos.
As lembranças são muitas, a saudade e a gratidão maiores ainda.
Agradeço a Deus por ter nos dado um amigo, precioso e raro, como o “Seu Anastássio”.

Héber José Santos