Empresários brasileiros visitam a Glass China

Além das tradicionais feiras de Milão e de Dusseldorf, outro evento internacional passou a fazer parte do roteiro dos empresários brasileiros do vidro: a China Glass. Realizado bienalmente na cidade de Shangai, no mês de abril, a feira vem crescendo a cada edição. Para falar do que a exposição representa para o Brasil, entrevistamos o diretor da revista Sincavidro e da Vidros Belém, Antônio Skardanas (Tony), retornando de sua sétima visita à China Glass, e Rodrigo Correia, diretor da Mercin Glass, de São Paulo, na sua terceira participação.

Que evolução vocês perceberam nesses anos de participação?
Tony: Percebemos diferenças enormes de um evento para outro. Coisas que demorariam vários anos para acontecer no Brasil, lá acontecem rapidamente. Na área do vidro o que a gente vê por lá ainda encontramos por aqui com algum preço diferenciado. Outra diferença é que enquanto no Brasil temos dois ou três fabricantes de máquinas, na China há mais de 300.

Então a principal diferença está na infraestrutura da China?
Tony: Sim, teríamos que ter umas dez olimpíadas por aqui para chegarmos ao ritmo deles. É impressionante. Viajamos, por exemplo, em um trem que pegamos ao lado do aeroporto no centro de Shangai que andava a mais de 400 km/h, coisa que há dois anos não existia. Essa evolução é muito rápida e até assustadora. Eles são muito ágeis e desenvolvem tudo, podendo chegar, inclusive, ao vidro.

Vocês perceberam algum risco ao mercado nacional?
Tony: O risco ao Brasil é que o governo brasileiro não investe adequadamente em infraestrutura, tem a energia mais cara do mundo e, consequentemente, o Custo Brasil é altíssimo. Estamos sempre à mercê do dólar. Só temos o instrumento do câmbio como fator competitivo. Precisamos baixar o custo Brasil para que a China não se torne risco para o setor vidreiro.
Rodrigo: Na verdade, a China está ajudando o mundo a acordar para a realidade, ver como muitas coisas estão inflacionadas e como dá para cortar gastos e se tornar mais lucrativo. Por aqui sinto que os funcionários ficam procurando problemas em vez de trabalharem com seriedade.
Tony: Outra coisa que me surpreendeu é que na construção civil eles trabalham em três turnos. Dia e noite. Devido a isso eles concluem obras três vezes mais rápido que por aqui. Precisamos mudar a mentalidade em muitos setores.

Um dos comentários que se ouve é que as máquinas chinesas estão evoluindo em qualidade e mantendo o preço baixo. É verdade?
Rodrigo: É uma tendência que se observa. O Brasil tem de acordar e reagir. Já comprei quatro máquinas chinesas. Possuem boa qualidade e trabalham bem. Já existem, inclusive, nomes de grife, como a Apple, que produz componentes na China. E no setor de máquinas para vidros isso também está ocorrendo.

Qual seria a mensagem a ser passada ao Brasil e aos brasileiros após essa visita à feira chinesa?
Tony: A mensagem é que o Brasil não pode ficar preso só no câmbio, tem de reduzir os custos, implantar uma reforma tributária, deixar o setor privado se desenvolver para exportar tecnologia e não somente commodities. É muito pouco para um país que se considera a bola da vez. A intenção de criar um dumping para o mercado chinês é mais fácil, mas não soluciona. Não devemos criar barreiras, mas sim, pontes.