Sérgio Amadei era consultor de informática, quando decidiu trabalhar com materiais provenientes de casas demolidas. Tudo começou quando ele reformou seu apartamento com materiais de demolição; os amigos gostaram do resultado e passaram a incentivá-lo a se dedicar somente às reformas. Um dia, largou a profissão e passou a trabalhar somente com isso. Ele usa madeira, telha, vidro, ferro, grades de casas que foram demolidas e, com esses materiais, produz janelas, armários, mesas e qualquer outro produto que o cliente desejar. Os maiores consumidores estão no estado do Rio de Janeiro mesmo. Mas há algumas peças que são vendidas para outros estados e até para o exterior.

Móveis da 6F feitos com madeira de barcos antigos

Mesa de vidro feita com ferpas de madeira, pela oficina de artesanato Helizart Objetos

Uma dificuldade apontada pelo empresário é a escassez da matéria-prima, principalmente para alguns projetos que exigem materiais antigos. “No meu caso, as casas demolidas precisam ser centenárias”, explica o empresário ao afirmar que as demolições desse tipo de construções estão acabando. A maior parte dos materiais com que trabalha é comprada. “A doação é mais difícil, principalmente do vidro”, afirma Sérgio, que consegue comprar peças de vidro cortadas erradas, em algumas vidraçarias fluminenses para integrar seus projetos. O “Blindex” (temperado), por exemplo, é usado para fazer mesas.
A preocupação com o meio ambiente existe desde a década de 70, quando os acordos mundiais passaram a levar em consideração as questões ambientais. Desde então, os termos Sustentabilidade e Ecologicamente Correto vêm ganhando força, fazendo com que a moda verde se torne uma excelente ferramenta de marketing para que as empresas conquistem mais clientes. Muitos empresários aderiram ao “ecologicamente correto” e desenvolveram uma linha de produtos feita com materiais recicláveis, outros dedicaram todo o seu negócio para os materiais reaproveitáveis.
A reportagem visitou a feira da Associação Brasileira das Indústrias de Móveis de Alta Decoração (Abimad), que aconteceu entre os dias 8 e 11 de fevereiro, em São Paulo. Ali, vários expositores afirmaram fabricar móveis e objetos de decoração com materiais reaproveitáveis. “Têm empresas que estão no início do processo e têm empresas que já estão lá na frente, mas dizer que alguma empresa vai retroceder nisso é impossível”, acredita Michel Otte, presidente da Abimad. Entre os materiais que podem ser reaproveitáveis, Otte citou o vidro, como sendo um produto de grande aproveitamento por gerar muitos recortes. “Têm empresas que fazem peças maravilhosas de decoração utilizando o resto do vidro”, exemplifica.
Um dos expositores da feira que se encaixa nesse perfil citado pelo presidente da Abimad é um ateliê de Belo Horizonte (MG), que produz peças de decoração com materiais reaproveitáveis. A ideia surgiu há mais de dez anos, quando Eliza Bravim, uma das designers da fábrica, se encantou com o trabalho de um japonês que usava pedaços de cristais de uma empresa de São Paulo para confeccionar objetos de decoração. Depois disso, ela foi até uma distribuidora de vidros mineira e pediu restos de vidros ao diretor, que os concedeu de bom grado. “Quando ele abriu o galpão, era tanto cristal, tanto cristal”, disse Eliza, entusiasmada ao relembrar o dia. “Eram pedaços de tampo, de vitral, e tudo mais”.
Até hoje, a designer trabalha com pedaços de vidros que foram doados, naquela época, pela distribuidora. Também compra alguns materiais por quilo para incrementar o estoque de matérias-primas, que conta com madeira, ferro e vergalhão de obras. Cada material adquirido é moldado de acordo com as possibilidades da peça, e assim, os objetos de decoração vão ganhando forma. “Como eu trabalho com sobras, a cada seis meses, eu tenho que fazer tudo novo”, conta Eliza explicando que, cada vez que os catadores chegam com os materiais, ela precisa criar novos produtos com as peças disponíveis.
Um dos pontos negativos é que o cliente não pode definir o tamanho da peça, e não há como refazer um produto que já esteja esgotado. Se a matéria-prima acaba, não tem jeito. “Eu vou trabalhar a peça dependendo do pedaço que tem”, explica a designer. Mas, mesmo com essa limitação, os produtos são bem aceitos no Brasil e no exterior, onde o ateliê vende produtos para mais de 80 lojas.
“Hoje, é tudo ecologicamente correto, mas quando eu comecei, as coisas ainda não eram assim”, enfatiza Eliza para mostrar que ela trabalha com as sobras dos outros por conta da cultura que recebeu durante a infância, quando aprendeu que não se deve desperdiçar nada.