O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), chamou a atenção do país inteiro para as normas de segurança contra fogo. Depois que 238 pessoas morreram, sendo 90% por asfixia mecânica, provocada pela inalação de fumaça tóxica, os bombeiros reforçaram a fiscalização, interditando 423 casas noturnas em todo o país.
As normas de segurança são claras e, se seguidas corretamente, podem evitar que incêndios assumam proporções trágicas, como aconteceu no final de janeiro. Uma das normas mais importantes é a ABNT NBR 9077:2001, que diz respeitos às exigências para as saídas de emergência em edifícios.
Porém, o que pouca gente sabe é que os vidros especiais Corta-Fogo e Para-Chama também podem ser usados para aumentar a segurança dos ambientes de trabalho, lazer, prédios públicos e, até mesmo, residenciais. Embora não haja fabricação desses vidros no Brasil, eles já são comercializados há alguns anos no país.
É importante ressaltar que os dois tipos de vidro resistentes ao fogo se diferenciam quanto a capacidade de integridade e isolamento. A primeira está relacionada ao vidro Para-Chamas, que evita a passagem de gases tóxicos e fumaça, mas não protege contra o calor. Já o isolamento é a característica do vidro Corta-Fogo, que além de impedir a propagação de gases tóxicos e fumaças, também retém o calor.
A Schott Brasil, que os produz em fábrica própria da companhia, sediada na Alemanha. Desde 2009, esses vidros resistentes ao fogo são processados e distribuídos, no Brasil, pela Glassec Viracon. “A parceria entre a Schott e a Glassec Viracon foi essencial para a introdução desse produto no mercado brasileiro, diminuindo consideravelmente o prazo de entrega e o valor do produto”, conta Viviane Moscoso, gerente adjunta de vendas da Schott Brasil. Atualmente, as encomendas dos vidros Para-Chamas (PYRAN S) demoram, no máximo, 15 dias para serem entregues. Já as do vidro Corta-Fogo (PYRANOVA) leva, em média, 45 dias.

PYRANOVA

Stadthalle Wien (prefeitura de Viena), Áustria, erguido em 2005, possui 50 m² de vidro PYRANOVA (EI 60), de espessura 28 mm e 15 mm.

 

Pinacoteca de Munique

A fachada da Pinacoteca de Munique, na Alemanha, possui 25 m² de vidro duplo: Pyran S 6 mm / espaço de 15 mm / temperado 6 mm.

O PYRAN S é um vidro monolítico, em borosilicato plano, temperado e resistente a altas temperaturas. Tem como características: alta transmissão sob luz visível e ultravioleta, reprodução de cores de modo fiel e natural. Sua espessura varia de acordo com o tempo de resistência exigido. Mas, Viviane ressalta que, com uma espessura de 6 mm, o PYRAN S consegue resistir ao fogo, garantindo integridade, durante um período de duas horas.
Já o PYRANOVA é multilaminado, com camadas intumescentes, as quais no caso de um incêndio tornarão gradualmente o vidro opaco, translúcido. Sua espessura varia de acordo com o local de aplicação do vidro, se é uma área interna ou externa, e com o tempo de resistência exigido, podendo variar de 15 mm/18 mm para 30 minutos de resistência, 19 mm para 45 min, 23 mm/27 mm para 60 min, 37 mm/40 mm para 90 min e 54 mm para 120 min.
Outra fabricante que vende os vidros resistentes ao fogo no Brasil é a Cebrace. Eles são produzidos nas fábricas dos Estados Unidos e Europa, comercializados pelas matrizes da companhia sediadas no país: Vetrotech e Pilkington. “Esses vidros são indicados principalmente para escritórios que necessitam de compartimentação, saídas de emergência, rotas de fuga, locais públicos de difícil evacuação (shoppings centers, estações de trem, aeroportos), coberturas e laterais de túneis e fachadas de edifício”, explica Carlos Henrique Mattar, gerente de marketing da Cebrace.
Os vidros resistentes ao fogo evitam a propagação do incêndio para outros ambientes, dificultam a inalação de fumaça e gases tóxicos, além de favorecer o resgate seguro das vítimas. Viviane Moscoso, gerente adjunta de vendas da Schott Brasil, exemplifica que utilizar um visor de vidro numa porta corta-fogo pode garantir proteção aos usuários e segurança para a equipe de resgate, pois, dessa forma, os bombeiros podem visualizar o que está acontecendo no ambiente.
Mesmo assim, a demanda por esses tipos de vidro no Brasil ainda é pequena em razão da falta de conhecimento do produto. “Os arquitetos e especificadores têm muita curiosidade [sobre vidro resistente ao fogo], a explicação está em: pouco conhecimento, concorrência com
soluções locais em aço, a não exigência por parte dos bombeiros, e, por ainda ser importado, seu custo acaba sendo um pouco maior do que as soluções tradicionais”, enumera Carlos Henrique Mattar.
No entanto, segundo a gerente adjunta de vendas da Schott Brasil, a procura por esses materiais específicos vem crescendo nos últimos anos. “Comercializamos vidros resistentes ao fogo para as mais variadas aplicações e tipos de projetos, que vão desde edifícios, residências, hospitais e indústrias, em diferentes estados brasileiros”, afirma.
Entretanto, Viviane ainda ressalta que os vidros resistentes ao fogo não podem ser especificados considerando uma opção mais econômica que a outra e sim pela sua característica de resistência ao fogo, de acordo com a necessidade de cada projeto. “Se a aplicação requer integridade, o vidro adequado será Para-Chamas. Já numa situação de isolamento, o vidro atenderá aos quesitos integridade e isolamento, logo, Corta-Fogo”, explica.
O desempenho eficaz do vidro resistente ao fogo depende do conjunto: vidro, caixilho, fita de vedação e instalação correta. “O vidro, seja resistente ao fogo ou com outras finalidades, é um material nobre e muito seguro. Mas desde que especificado, utilizado e instalado corretamente”, conclui a gerente.