Alcides formou mais de 400 alunos enquanto ministrou os Cursos Técnicos para Vidraceiros

Quase cem pessoas se reuniram no início da tarde do dia 15 de outubro, no Cemitério Jardim da Saudade, para prestarem suas homenagens de despedida a Alcides da Silva Filho, figura querida do ramo e conhecido também como “Professor Alcides”. Um sentimento de tristeza pela perda de uma pessoa carismática e amiga pairava durante os momentos de velório e do sepultamento.
Alcides, que completaria 61 anos de idade no próximo mês, foi vítima de um ataque cardíaco fulminante quando estava se dirigindo para dar mais uma aula no Curso Sincavidro de Formação de Vidraceiros. Bateu levemente o carro e foi socorrido, mas faleceu minutos depois no Hospital Carlos Chagas.
Natural de Floresta, em Pernambuco, atuava há mais de dois anos no Sincavidro, ministrando cursos e contagiando a todos com sua presença inspiradora e cordial. Morador do bairro Thomas Coelho, deixa esposa e uma filha.
Professor por formação, licenciado em letras, Alcides ingressou no setor vidreiro há 30 anos. Trabalhou em várias empresas, incluindo a multinacional Blindex. Ultimamente trabalhava como professor do curso técnico e ocupava o cargo de Supervisor Técnico Comercial na New Temper, desde a fundação da empresa. “Profissional dedicado, comprometido e atencioso, Alcides foi responsável pela formação técnica de muitos dos atuais funcionários da New Temper. Foi palestrante e professor de muitos vidraceiros que atuam no mercado hoje”, lembra Luana Fernandes Lopes, responsável pelo setor de Recursos Humanos da New Temper.
Durante o sepultamento, alunos que hoje atuam no ramo e colegas de muitos anos e empresas anteriores relembravam o modo de ser cativante de Alcides. “Era uma pessoa simpática e amiga, sempre motivando e ajudando e que tinha muito prazer em ensinar”, comenta Fernando Pires, presidente do Sincavidro.
Durante os últimos dois anos em que trabalhou no sindicato, ele formou cerca de 400 alunos nos Cursos Técnicos para Vidraceiros.
Exemplo de profissional e professor na essência da palavra. A morte de Alcides é uma significativa e triste perda para o setor vidreiro fluminense.
É muito doloroso falar de alguém que nos deixa  ainda no meio da sua trajetória. Se a morte é sempre uma perda, a morte repentina é sempre mais dura e trágica.
Coisas que seriam feitas, ficam por fazer.   Perdões que seriam pedidos, não mais serão.  Tudo parte com quem parte.
E aqueles que ficam? Como ficam?
Pois é Alcides, aquele “muito obrigado” que eu ia te dizer no sábado seguinte, no final do curso, por mais um ano em que trabalhamos juntos. Não foi dito. Puxa! Bem que eu poderia ter agradecido quando estivemos juntos no mês passado. Mas como é que eu podia   adivinhar?
E os planos para 2014? A gente queria sempre melhorar o nosso “Curso de Vidraceiro”, mas os alunos adoravam do jeito que ele era feito. Você, devotado, atencioso e prestativo carimbava com nota máxima todas as avaliações que eu fazia com os alunos. Era o “Professor”, verdadeiramente, amado e querido por todos. Foram mais de 400 alunos e a menor nota que o curso recebeu nesses quatro anos,  foi  um envergonhado “oito”.
Também não sei como vou poder te provar que, a partir do ano que vem,  eu havia prometido a mim mesmo que não mais entraria na sua sala, aos sábados, implicando e brincando com você na frente dos seus alunos. Já sei que você não acreditaria. Quer saber? Nem eu.
Foram mais de 20 anos de convivência. No início trabalhávamos juntos. Naquela época faltava tudo – dinheiro então, nem se fala – e sobravam os sonhos. Depois em caminhos diferentes, assisti você passar por outras empresas e de todos aqueles que trabalharam com você, só vi elogios.
Você não era simplesmente o bom funcionário. Menos ainda o técnico experiente, atento as medidas, folgas, tipos de vidro e ferragens. Isso para você era trivial. A sua grande vocação era ser “O Professor”.  E aí, meu amigo, mesmo partindo antes da hora, o tempo não teve a ousadia de te tirar esse prazer. Por muito pouco você não morreu dentro da sua sala de aula. Foi no caminho entre a sua casa e o seu curso que esse bravo coração falhou. Mas, pense bem, é como se tudo tivesse acontecido entre as duas coisas que você mais amava na vida: a família e a sala de aula.
Meu caro amigo, fica aqui registrado nessas linhas pobres o meu agradecimento e, tenho certeza, de toda a família vidreira do Rio de Janeiro, por tudo que você realizou pelo nosso segmento.
De um pequeno poema de Fernando Pessoa,  quero roubar dele a leveza da poesia para melhor tratar a sua ausência.
Descanse em paz!


A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa